
de Márcio Cruz
Julho de 2005
Ato único
CENA I
Um casal de brasileiros, Maria e Emílio discutem dentro do ônibus. Uma manifestação contra a globalização em Londres causa um grande congestionamento. Eles assistem a tudo impassíveis. Onibus estão sendo desviados ou terminando seus trajetos antes dos destinos esperados. As ruas estão repletas de policiais, bombeiros e outros oficiais. Emílio está olhando para for a da janela. Maria o observa.
Maria – O que foi?
Emílio – olhando para for a – Nada.
Maria – O que aconteceu?
Emílio – Nada
Maria – Como nada? Eu te conheço. Você está bravo.
Emílio – Magina.
Maria – Está vendo? Está bravo. Se não estivesse bravo não falaria com essa irônia. – imita Emílio – Magina. Sei. Você tá bravo.
Emílio permanece quieto. Pedestre atravessa cruzamento da Regent Street com a Oxford Street. As ruas estão vazias.
Maria – O que foi? Conta para mim.
Emílio – Como o que foi? Você sabe o que foi.
Maria – Não. Não sei.
Emílio – Não sabe?
Maria – Não. Não sei.
Emílio – Tenta adivinhar. Você tem a imaginação tão fértil…
Maria – Do que você está falando?
Emílio – Nada. Esquece.
As pessoas estao apreensivas andando nas calcadas. As pistas estao praticamente vazias. Policiais, comunistas e transeuntes. Todos ficam presos, acuados pela chuva comeca a cair.
Maria – E esse ônibus que não anda. Tá tudo parado. Eu não sei não… Acho que vou chegar atrasada… Acho que vou andando.
Emílio – Você tá louca?
Maria – Por quê?
Emílio – Ah!
Maria – Por quê?
Emílio – Quer ir a pé? Esse monte de maluco na rua e você quer ir a pé?
Maria – Ué! Eu tenho que trabalhar, né? Alguém aqui tem de trabalhar.
Emílio – O que você está querendo dizer?
Maria – Nada.
Emílio – Nada?
Maria – Nada…
Emílio – Você tá me acusando?
Maria – Eu não tô falando nada. Eu disse que queria ir andando. Só.
Emílio – Não. Você disse que eu não trabalho.
As paredes de vidro do McDonalds são cobertas às pressas com compensados de madeira. Os labours, todos brancos, carecas e pobres são observados por policiais.
Maria – Eu não disse isso.
Emílio – Dissimulada.
Maria – Hã?
Emílio – É! Dissimulada… mas tenho certeza que você não sabe o que é isso.
Maria – Tá me chamando de burra, é?
Emílio – Eu não tô te chamando de nada.
Maria – Está sim. Primeiro de puta. Depois de burra.
Emílio – Puta? Quem te chamou de puta?
Maria – Você. Você acha que eu sou uma puta!
Emílio – Você está louca.
Maria – Não. Não estou louca.
No lugar do asfalto, uma grande cratera separa as duas calcadas. Manifestantes e policiais estão ansiosos para que algo aconteça. Enquanto isso, um rapaz tenta vender tickets para Mama Mia, o musical com musicas do ABBA em sua trilha sonora.
Emílio – Quando? Quando na vida eu te chamei de puta?
Maria – Não precisa falar. Eu senti.
Emílio – Você é louca.
Maria – Mas não sou puta!
Emílio – Eu não te chamei de puta!
Maria – Mas quis dizer.
Emílio – O quê? Eu não quis dizer nada. Você está encanada com outras coisas.
Maria – Você acha que eu sou uma puta. Assume.
Emílio – Misericordioso! Dá me paz!
Maria – Não mete Deus no meio. Ele não tem nada a ver com suas porcarias.
Emílio – O Deus é meu e eu enfio ele onde eu quiser, falô!
Maria – Está bem. Faz o que quiser.
Emílio – Faço o que eu quiser mesmo. Sabia que quando eu era muleque eu batia uma para o peladão? Sabia?
Maria – Depois eu é que sou puta!
Emílio – Puta? Se fosse puta não namorava você. Quem gostava de puta era ele.
Maria – Cala a boca!
Centenas de manifestantes, turistas, curiosos e policiais, andam pelo local. Acima dos famosos paineis luminosos, a frase de uma musica conhecida: IMAGINE ALL THE PEOPLE LIVING LIFE IN PEACE.
Emílio – Uou! Você viu aquilo? Você viu aquilo? Viu aquele cara com capuz de shrek e pistola d’água? Ai, que inveja meu Deus. Que inveja. Se eu fosse inglês eu também faria o mesmo. Iria só pra rua zuar.
Maria – Tenho certeza que sim.
Emílio – Mas não. Nasci naquele país de merda. Tenho de trabalhar…
Maria – Você sabe porque eles estão protestando?
Emílio – Com certeza não é para chegar ao trabalho na hora.
Maria – Você é um ignorante.
Emílio – Eu, ignorante?
Maria – É! Um ignorante. Eles estão protestando para por a gente como você para for a do país.
Emílio – Que nada. Eles estão lutando contra a globalização. Fair trade, minha filha.
Maria – São nazistas. Querem que os imigrantes embarquem de volta para seus países.
Emílio – Você tá louca.
Maria – Pára de falar que eu sou louca?!
Emílio – Mas é o que você é, não é? Fica inventando coisa. Pra mim quem inventa coisa é louco.
Maria – Ignorante.
Emílio – Louca!
Maria – Eu não sou puta!
Emílio – Eu nunca falei isso. Pelo amor de Deus.
Maria – E depois me chamou de dissimulada.
Emílio – Tome como um elogio. Era assim que Bentinho chamava Capitu. Dissimulada.
Maria – Cala a boca!
Algumas dezenas de manifestantes protestam pacificamente a frente do cordao de isolamento.
Emílio – Olha lá! – dá risada – Olha só! – coloca a mão no rosto excitado
Maria – Vou chegar atrasada. Era melhor ir a pé.
Emílio – Ué! Não foi você quem falou que eles eram todos nazistas. Vai querer se misturar com nazistas?
Maria – Acontece que eu falo inglês flu-en-te! You know? With British accent. I went to Etton!
Emílio – Foi para onde?
Maria – To Etton! A escola dos lordes e filhos de lordes. Príncipe Harry estudou lá!
Emílio – Outro nazista…
Maria – Cala a boca. Que nazista, o quê… É uma criança. Até parece que você já não cometeu gafes na sua vida.
Emílio – Já. Mas eu não sou príncipe….
Maria – Não mesmo…
Emílio (continua) E os nazistas não bombardearam meu país. E minha avó não teve que perambular por aí andando sobre ossos humanos segurando uma coroa na cabeça,
Maria – Você não sabe de nada.
Emílio – Então vai lá. Vai lá com seu British Accent. Vai lá. Vai lá e fala. Olha gente eu sou assim, neguinha, mas na verdade eu sou uma lady, ok? I am a black lady. Beyoncé.
Maria dá um tapa em Emílio.
Maria – Pára! Não tem graça.
Emílio – Beyoncè!
Maria começa a chorar.
Emílio – Ai. Não é pra tanto, tá? Pára, vai. Vai borrar sua maquiagem…
Maria – Que se dane minha maquiagem.
Emílio – Não vai querer chegar no restaurante toda borrada, né?
Maria continua chorando. De repente, uma musica comeca a soar de cima de uns dos predios: ALL WE NEED IS LOVE. Um rapaz de cabelos castanhos pintados de dourado e de oculos acompanha a movimentacao de sua janela onde colocou uma caixa de som. Tres garotos saem de uma porta com grandes placas nas maos. As placas trazem posters de gatinhos siameses. Todos se olham, sorriem, aplaudem e comecam a cantar alegramente em coro.
TODOS CANTANDO
All we need is love.
All we need is love.
Um homem de trinta anos de cabeca raspada observa os helicópteros militares que cruzam o céu.
Emílio - Bloody hell! Olha! Noooossssssssa! Você viu aquilo? Você viu aquilo?
Um helicóptero de guerra. Nossa. Meu deus. Se eu tivesse um desses eu…
Maria – Seu pinto crescia…
Emílio – O quê?
Maria – Seu pinto crescia. Você iria ter o maior pau do mundo.
Emílio – Do que está falando?
Maria – Um pinto grande, não é? Era tudo o que você queria. Pra ficar se exibindo em banheiro público.
Emílio – Cala a boca!
Maria dá risada.
Emílio – Cala a boca!
Maria – Pintudo!
Emílio – Uma lady, é? É isso que você falou que você era?
Maria – Ué! Qual o problema?
Emílio – Nada. Aqui tudo é permitido. Até príncipe fala sacanagem em público. “Queria ser seu tampax…” Que cara nojento!
Maria – Ele estava falando aquelas coisas só para ela.
Emílio – É, mas todo mundo ouviu.
Maria – Mas ele não quis dizer aquilo.
Emílio – E eu não quis dizer que você é uma puta!
Maria – Mas o que você falou. O que você fez.
Emílio – Não falei nada.
Maria – Deveria ter falado. Ao invés de ir enfiando o dedo onde não foi convidado.
Emílio – Eu não fiz isso.
Maria – Fez sim… Tá pensando o quê? Tá pensando que pode ir colocando seu dedinho onde quer? Acha que todo mundo gosta é?
Emílio – sem graça – Eu não te chamei de puta.
Maria – Não é porque você gosta de um fio terra que eu tenho de gostar. E vou e falar, viu. Coisa nojenta. Minha unha tão bonita. O pessoal do restaurante reclama, viu?
Emílio – O que você disse pra eles,
Maria – Eu não falei nada. Mas tenho vontade.
Emílio – Não se atreva…
Entram uma mãe e um filho no ônibus. Eles passam pelo casal e sentam-se lá na frente.
Emílio – Olha!
Maria – O quê?
Emílio – Olha! São brasileiros, escuta…
Mãe – Filho senta aqui comigo. Vamos sentar aqui na frente.
Emílio – Não falei?
Maria – E daí?
Emílio – Vamos falar inglês. Não quero que ninguém saiba que somos brasileiros.
Maria – Ué? Tá com vergonha.
Emílio – Não. Mas não quero que saibam.
Maria – rindo – Olha para sua cara!
Emílio – Pára. Fala em inglês.
Maria – Puta cara de brasileiro!
Emílio – Brasileiro… - debocha – Sabe que lá no hotel eles acham que eu sou francês, viu, francês.
Maria – É que eles não conhecem nenhum sotaque latino. Daí quando vem alguém falando diferente, acham que é francês. Mas é por causa do sotaque…
Emílio – Fran-cês. Fran-cês…
Maria – ri
Filho – Mãe! Tem ponto de ônibus no Brasil?
Emílio – Você ou viu aquilo? Você ouviu aquilo?
Maria – Hã?
Emílio – Você ouviu o que o muleque disse?
Maria – O quê?
Emílio – Ele perguntou para a mãe dele se tem ponto de ônibus no Brasil.
Maria – E daí?
Emílio – E daí que o muleque deve ter uns quinze anos.
Maria – Dez.
Emílio – Tanto faz. Um muleque de dez anos e não saber se tem ponto de ônibus no Brasil?
Maria – E o que que tem?
Emílio – É porque é mal-acostumado. Deve andar de motorista pra lá e pra cá e não conhece a rua.
Maria – Deixa o menino. Tão bonitinho…
Emílio – Alienado! Que absurdo! Se eu fizesse uma pergunta dessas para minha mãe aos dez anos ela me dava um tapa na cabeça.
Maria – Daí, sua sensibilidade.
Emílio – Não enche o saco… Que absurrrrdo!
Mãe – Não filho. Não tem.
Emílio – indignado – Você ouviu? Ouviu?
Maria – O quê?
Emílio – A perua falou que não tem.
Maria – Ué? E tem?
Emílio – Cala a boca.
Maria – Porque a gente é obrigado a saber tudo?
Emílio – Amiga, não é tudo. Eu tô falando de ponto de ônibus.
Maria – Eu nunca tinha andando de metrô até ir para Nova Iorque aos quinze.
Emílio – Porque você é uma burguesa-filhinha-de-papai.
Maria – Meu pai trabalhou muito para chegar onde chegou.
Emílio – O meu também.
Maria – Não foi isso que eu quis dizer.
Emílio – E o que você quis dizer?
Maria – Você está nervoso… O que foi? Não quer dizer?
Alguns punks exaltados provocam insistentemente os policiais.
Emílio – Não!
Maria – Ai! Meu Deus. Vamos pegar o ônibus de volta.
Mãe e filho descem assustados do ônibus.
Emílio – Não, não! A gente já veio até aqui. A gente vai ficar aqui. E depois você não pode perder um dia. Sabe que a gente precisa de dinheiro…
Maria – Você precisa de dinheiro.
Emílio – Não precisa jogar na cara, tá? Depois que eu renovar o visto eu te pago de volta com juros.
Maria – Não precisa. Tô brincando.
Emílio – Então pára de fazer esses comentários. Sabe que eu não gosto.
Um pequeno grupo continua a protestar contra o cordao de isolamento. Um homem de cabelos dread sobe nos ombros de um colega e parece regê-los. Uma menina de cabelos castanhos grita palavras de ordem e aponta o dedo contra os policiais.
Maria – Vamos voltar. O bicho tá pegando lá for a.
Emílio – Não vai acontecer nada com a gente. A gente tá dentro do ônibus. E eles adoram esses ônibus de dois andares, né? Se fosse no Brasil o povo tacava fogo. Virava… mas quem vai conseguir virar um ônibus desse tamanho? Taí? Se eu fosse o Maluf comprava uma pá de ônibus igual a esse. Ia ficar legal em São Paulo.
Maria – Olha lá. A polícia vai bater neles, Vai bater neles! Não quero nem ver! – fecha os olhos.
Emílio observa tudo sem piscar. Um homem e uma mulher de cinquenta
anos andam no meio da confusao. Eles parambem na frente do cordao de isolamento. Eles tentam passar por ele. Um policial o impede. Ele tenta argumentar. A menina continua gritandopalavras de ordem. Um rapaz careca surge detras dos manifestantes e joga uma garrafa sobre os policiais. A garrafa se espatifa no chao. Os manifestantes comemoram.
Emílio – Vê! Vê! Vê!
Emílio tenta descobrir os olhos de Maria. Sob a ordem de seu comandante a tropa avanca
empurrando todos para traz, inclusive o casal de turistas. Alguns manifestantes tentam resistir a forca policial e tomam cacetadas. A menina de cabelos castanhos tem o rosto sangrando.
Emílio – Está perdendo um momento histórico. Não está vendo?
Maria – Momeno histórico. Todo ano a mesma coisa!
Emílio - Olha vão virar o carro. Olha, olha, virou!
Maria – Ai meu Deus.
Emílio – Ah, se eu fosse europeu.
Maria – Se fosse europeu o quê?
Emílio – Se eu fosse europeu seria anarquista.
Maria – Sei…
Emílio – Olha lá! Tacaram fogo!
Maria – Abaixa! Abaixa!
Emílio – Que abaixa o quê? Quero ver tudo!
Maria – Vai levar uma pedrada na cabeça,
Emílio – com sotaque – Fair trade! Fair trade!
Maria – Com sotaque britânico – Fair Trade – For God sake! – Fair trade. Assim ninguém te respeita –
Emílio – No logo! No logo!
Um outro ônibus de dois andares para turistas passam ao lado do deles. A guia japonesa fala ao microfone:
Guia - À direita de podemos ver os manifestantes anarquistas, um pouco acima,
os comunistas, ao lado dos famosos punks, e finalmente brasileiros e putas.
Black
FIM